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Lembra-se de
quando aqui chegamos? Apresentei você aos meus conterrâneos, mas ninguém quis saber de
maiores intimidades com você. Diziam as más línguas, já naquela época, que era muito
grosso, muito duro e vivia se intrometendo na vida dos outros. Diziam também que você
queimava como cigarro, tirando pedaço das pessoas. Teve época que você apareceu com uma
tinta dos diabos, ora vermelha, ora preta, que fazia uma sujeirada danada.
O povo ficava assustado!
Pior mesmo foi dizerem que quando você
via alguma criança com uma simples moedinha logo tomava delas. Que maldade!
Certa vez você foi a São Paulo fazer um curso e voltou dando agulhada em todo
mundo. Lembra-se? Tinha gente que corria de você.
Outra vez, após mais uma viagem, foi o
caso de D. Maria. Coitadinha! Você chamou até
um amigo seu para roubar dela uma simples pedrinha. Covardia...
Você não podia viajar mesmo...
E os anéis de borracha, que loucura!
Parecia até padre casamenteiro!
Era anel a torto e a direito.
Na última de suas viagens, você voltou
com a mania de furar a barriga dos outros e o primeiro da lista foi o pobre do Sr.
Joaquim. Logo ele, que era querido por todos.
Agora, mudando de assunto, que trabalho que você me dava quando ficava doente. Só
tinha um médico, em toda São Paulo, que conseguia curar você. E como ficava caro!
Que despesa, Meu Deus!
Pois é meu companheiro, apesar de tudo isso eu sou e serei sempre seu amigo.
Estamos juntos há tanto tempo! Você viu meus filhos nascerem e crescerem, saudáveis e
bonitos, graças a Deus.
Quantas horas passamos juntos?
Quantas vezes contei meus segredos a
você? Somente a você!
Lembro-me, outra vez, de você chegando com uma mala preta de espuma, com cheiro de
nova. Você me abraçou e alí mesmo ficamos amigos. Uma amizade que já dura quase uma
vida. Uma amizade quase eterna.
Planejamos tudo tão bem. Sonhamos
juntos!
Aconteça o que acontecer, estaremos
sempre juntos, de mãos dadas. Não importa que continuem falando mal de você. Eu gosto
de você e pronto.
Mas uma coisa só eu lhe peço: não viaje mais, meu velho amigo fibroscópio.
Crônica: Dr. Luiz Paulo Pinho Nilo